domingo , 17 dezembro 2017
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Estudante com dislexia e paralisia cerebral se forma em história na UnB

Luiz Garcia pousa com os diplomas de bacharelado e licenciatura em história (Foto: Marília Marques/G1)

Nem mesmo o diagnóstico de paralisia cerebral, a baixa visão e a limitação motora impediram que o jovem Luiz Garcia, 30 anos, realizasse o sonho de uma graduação. O estudante foi aprovado em duas universidades federais e optou por cursar bacharelado e licenciatura em história na Universidade de Brasília (UnB).

A formatura foi no mês passado. No fim de semana, com o diploma em mãos, o jovem viajou com a família para o estado de São Paulo para mais uma conquista: a cirurgia de córnea que poderá lhe devolver a visão plena.

Em meio aos preparativos para mudança, o estudante recebeu o G1 em sua casa, na Vila Nova, em São Sebastião. Luiz disse que enfrentou desafios durante os cinco anos de formação, mas que “tudo ficou mais fácil” com o apoio dos pais e colegas tutores. (veja vídeo mais abaixo)

“No momento da minha formatura, me senti realizado.”

Estudante ao lados dos pais e da fonoaudióloga em solenidade de formatura (Foto: Arquivo pessoal )Estudante ao lados dos pais e da fonoaudióloga em solenidade de formatura (Foto: Arquivo pessoal )

Estudante ao lados dos pais e da fonoaudióloga em solenidade de formatura (Foto: Arquivo pessoal )

Devido à dislexia – um transtorno de aprendizagem – e à baixa visão ocasionada pela paralisia cerebral, Luiz tem dificuldades para ler e escrever. Todo o conteúdo foi aprendido na sala de aula, em áudios enviados por amigos e nas apostilas lidas pelos pais, que eram armazenadas em um gravador.

Quando precisou entregar trabalhos, Luiz contou com o apoio do pai para transcrever o que ele ditava. A tecnologia também deu uma mãozinha. “Aprendi a usar o microfone do teclado do celular para redigir textos”, conta.

O estudante atribui a escolha do curso aos bons professores que teve, e ao interesse por disciplinas da área de humanas. Ele diz que ainda pretende cursar jornalismo e no próximo ano vai tentar a aprovação em outra instituição pública – a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Me considero um bom aluno, sempre fui… Tanto que não cheguei só em uma universidade, cheguei em duas”, diz com um sorriso no rosto

Luiz Garcia fala ao G1 sobre a aprovação na UnB

Luiz Garcia fala ao G1 sobre a aprovação na UnB

Desafios

Como não tem sustentação nas mãos e nas pernas, Luiz se move em cadeira de rodas. O jovem conta, literalmente, com os braços do pai, o autônomo Luís Garcia, para realizar tarefas básicas enquanto está fora de casa, como se alimentar e ir ao banheiro.

Desempregados, pai e mãe do dedicado Luiz decidiram enfrentar o momento de crise com a visão empreendedora. O casal é autônomo e começou a vender marmitas no campus da UnB – uma solução encontrada para gerar renda para família e, ao mesmo tempo, estar perto para atender às necessidades do filho.

Desníveis, buracos e falta de banheiros adaptados à cadeirantes também foram alguns dos obstáculos para acessar as salas de aula no campus da UnB. Em cinco anos de curso, Luiz relata três quedas entre um pavilhão e outro. “Cheguei a ficar dois meses sem ir às aulas”.

“Muitas vezes tive que deixar as aulas e voltar para casa porque meu pai não tinha como me higienizar lá. Espero que, nos próximos anos, esses problemas sejam resolvidos.”

Paralisia cerebral

A mãe de Luiz, Rosana Garcia, teve o filho no sexto mês de gestação. Prematuro, ele nasceu de parto normal, com 900 gramas. “Os médicos achavam que ele não ia sobreviver”. Rosana diz que mesmo sem ter o pulmão formado, nem outros detalhes como cílios e sobrancelhas, Luiz “sempre se superou”.

“Ele ficou 24 dias internado e só recebeu alta com 1 quilo e 320 gramas. Cabia na palma da minha mão.”

Luiz, criança, sendo segurado pela mãe, no Parque Nacional de Brasília (Foto: Arquivo pessoal)Luiz, criança, sendo segurado pela mãe, no Parque Nacional de Brasília (Foto: Arquivo pessoal)

Luiz, criança, sendo segurado pela mãe, no Parque Nacional de Brasília (Foto: Arquivo pessoal)

O diagnóstico de paralisia cerebral só veio quando o bebê estava próximo de completar 1 ano. Luiz tinha limitações para andar, espasmos e dificuldades de coordenação motora. Segundo a mãe, a causa da patologia nunca foi informada pelos médicos.

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