sexta-feira , 22 setembro 2017
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Escritora não sabe se irá registrar estupro: ‘Ele sabe onde moro’

RIO — Após relatar em seu Facebook um estupro sofrido dentro de um Uber, em São Paulo, na noite deste domingo, a escritora Clara Averbuck, de 38 anos, criou uma campanha nas redes sociais. Com as hashtags #MeuMotoristaAbusador e #MeuMotoristaAssediador, a escritora espera que outras mulheres vítimas de casos semelhantes possam denunciar a violência sofrida. A campanha foi criada em parceria com outras mulheres de grupos feministas dos quais Clara participa.

— Isso que aconteceu comigo, eu espero que sirva como um gatilho para ser falado com a seriedade como deve ser falado. São muitas outras mulheres, tem muitos outros recortes que precisam ser feitos também. É um problema estrutral de violência contra a mulher, de como os homens tratam as mulheres. O buraco é mais embaixo. Dezenas e dezenas de estupro acontecem todos os dias, não sei porque o meu ficou tão famoso. Talvez porque eu seja uma mulher branca, seja ativista do feminismo. Mas não sou a única. A ideia da campanha já existia e ganhou força com isso. Quero que as mulheres não tenham medo de denunciar, externar. Não necessariamente denunciar na delegacia — contou.

A escritora relatou ter sido estuprada pelo motorista quando já chegava perto de casa. Segundo ela, ela a assediou ao longo do caminho e chegou a lhe derrubar, deixando-a com o olho roxo. Impressionada com a repercussão do caso nas redes sociais, Clara afirmou que escreveu o post com o objetivo de alertar outras mulheres.

— As mulheres têm muita vergonha. O fato de eu ter bebido é vergonha para a mulher. Os caras enchem a cara e vão para casa de táxi, Uber. A mulher tem que ser ilibada, virginal, não pode fazer nada. Se ela não for assim, “tá pedindo”, “tá facilitando”. Eu estava com vergonha ontem. Pensei mil coisas, em como poderia ter afastado ele, pensei que se não tivesse bebido tanto poderia ter me defendido. Pensei muitas coisas. Mas não posso ter vergonha. A culpa não é minha. A culpa é do agressor — disse.

Nas redes sociais da escritora, diversas pessoas questionaram se Clara iria registrar a ocorrência ou não. Em seu post, a escritora já havia dito que não sabia se faria o registro. Clara afirmou que o medo e a falta de confiança no sistema são os motivos que ainda a mantém em dúvida.

— Eu não decidi se farei o registro porque não confio no sistema. Ele sabe onde eu moro, tenho medo que me encontre. O sistema do jeito que é…é muito falho. Como sou militante feminista, acompanho muitas mulheres nas Delegacias da Mulher. É um despreparo incrível. Obviamente que não são todos. Mas eu vou ter que provar que fui vítima. O estupro é o único crime em que você tem que provar que é vítima. Como eu vou provar? Não teve penetração de pênis em mim, foi com o dedo. Que exame eu vou fazer para provar isso? Não existe. As pessoas acham que é muito fácil ir lá e pronto. Mas não é assim. Eu não confio na polícia. Eles não me deixam segura. Tenho mais medo do que acho que vão me proteger — disse.

A escritora ainda não descartou a possibilidade de registrar o crime na delegacia. Mais cedo, a Polícia Civil de São Paulo afirmou que o caso só poderia ser investigado caso Clara resolvesse fazer o registro de ocorrência.

Ainda nas redes sociais, diversas pessoas pediram dados sobre o motorista do carro. Clara, no entanto, se recusa a falar.

— Não vou falar. Sou contra esse punitismo de linchamento. Eu não botei print do cara, a identidade dele seguirá preservada — se limitou a dizer.

Clara Averbuck ainda comentou que não teve tempo para visualizar todas as mensagens de carinho pela internet e que está se recuperando, aos poucos, do que aconteceu, ao lado da família.

— Estou muito abalada. Minha filha acha que tenho que denunciar. Ela ficou assustada, impactada, chorou mais que eu. Não vou me calar. Recebi um monte de inbox que ainda não tive tempo de ler nessa correria toda. Acho que seria de bom tom da Uber fazer um treinamento com os motoristas, ensinando que “mulher bêbada não tá de convidando”, “não é para dar em cima da passageira”. A masculinidade tá calcada na violência. Isso tem que mudar — disse.

Em nota, a Uber repudiou o ocorrido e informou que o motorista foi identificado e banido da empresa.

“A Uber repudia qualquer tipo de violência contra mulheres. O motorista parceiro foi banido e estamos à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações. Acreditamos na importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio e violência contra a mulher”, diz nota.

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