terça-feira , 23 janeiro 2018
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‘Aqueles tiros foram em mim’, diz mãe de Uber assassinado; veja relato

Quando o telefone da doméstica Iranilda Ribeiro Pedreira Alves tocou na madrugada do último domingo (7), ela sentiu um aperto no coração. Pressentiu que o telefonema ia mudar a sua vida e, antes mesmo de receber a notícia, se ajoelhou no chão de casa, em Senhor do Bonfim, Centro Norte baiano, e pediu que Deus olhasse pelo seu filho mais velho.

Iranilda é a mãe do motorista de Uber José Henrique Pedreira Alves, 24 anos, morto com quatro tiros na noite de sábado (6), durante uma corrida pelo aplicativo Uber no bairro de Ilha Amarela, Subúrbio Ferroviário de Salvador.

A mãe de Henrique está em Salvador desde a última terça (9). Ao CORREIO, ela falou sobre o filho, relembrou momentos de alegria e pediu por justiça contra os autores do crime e apoio da Uber. Veja o relato em primeira pessoa.

Iranilda, mãe de José Henrique, se emociona durante entrevista (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Vinda para Salvador
“Ele veio do interior para me ajudar, porque o pai ficou desempregado e eu trabalho como doméstica. Ele queria tirar a gente da vida de sacrifício, pagando ou a água ou a luz. Então, ele sentiu que não podia ficar vendo isso e veio pra cá [pra Salvador]. Quando chegou, ele trabalhou durante quase um ano em uma papelaria e, quando terminou o contrato, fez supletivo e pensou em entrar no Uber”.

Ingresso no Uber e mau-presságio
“Ele me ligou para avisar que estava querendo entrar no Uber, porque ele sempre me ligava pra avisar quando ia decidir qualquer coisa. Parece que eu senti o que ia acontecer quando Henrique me falou que ia começar a trabalhar no Uber. Meu coração me avisou e eu disse: ‘Não, Uber, não!’ Até a tia, que morava com ele aqui, brigou e ficou chateada, porque ele disse que ia trabalhar com isso. Acho que ela também estava com esse pressentimento. Mas ele foi mesmo assim. Sabe como é homem, né? Não quer ficar dependendo de tia e tio. Ele queria tanto, que eu disse: ‘vá, mas quando chegar e sair, sempre ligue pra mainha, viu? pra eu poder dormir em paz'”.

José Henrique, 24 anos, foi morto dentro de carro (Foto: Reprodução/Facebook)

Notícia da morte
“No dia, eu cheguei tão cansada e não falei com ele. Também eu já tinha pedido  muito a Deus pra proteger ele. Quando a namorada dele me ligou, às 2h da manhã, eu pensei logo… Desejei que fosse até um acidente, mas que não fosse o que eu estava pensando.”

“Eu saí ajoelhando em casa, engatinhando pela rua, mas infelizmente foi o que aconteceu. (…) Arrancaram o meu tesouro.Tiraram a minha vida. E eu pergunto a vocês: como é que vive uma mãe sem vida? Como vou viver sem aquele sorriso? Sem aquele olhar lindo? Ele era a minha vida. A gente era alma gemêa. Quando eu pensava alguma coisa, ele pensava também.”

Planos interrompidos
“Henrique também estava cheio de objetivos. Ele estava feliz com a namorada e tinha me perguntado se o pai já tinha resolvido o INSS e eu disse que não. Aí ele pediu pro pai providenciar a laje, dizendo que ia se estraçalhar de tanto trabalhar pra fazer a casa de cima. Eu disse a ele que não precisava, que se ele quisesse podia voltar, mas ele estava na Uber e achava que estava bem.”

Iranilda estava no interior quando recebeu a notícia da morte do filho (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Incredulidade e despedida 
“Ele era um anjo, um menino de ouro. Eu lembro que a diretora da escola que ele estudou no 5º ano sempre me perguntava por Henrique. Nem sei se ela soube do que aconteceu. Os colegas e amigos de infância foram para o enterro. Todo mundo foi. Teve gente que foi até pra ver se era ele mesmo, porque não acreditou. (…) Por que ele deu tanto tiro em uma pessoa? Pra quê? Por causa de um mísero dinheiro? Nem o celular era dele, era da empesa. Ele [quem atirou] não sabe, mas matou a minha vida. Como vou viver sem meu filho?”

Honestidade e dignidade
“Henrique ligava pra lá pra casa e falava com o irmão caçula: ‘ajude mainha, porque ela vai chegar cansada’. Meu filho era homem, tinha índole, não era ousado e era diferenciado. Hoje vejo muitas mães chorando pelo fato do filho ser traficante, mas o que ainda me conforta é saber que era era honesto e digno. Quando eu chegava em casa do trabalho, só fazia almoço, porque a casa já estava arrumada. Tudo o que ele podia fazer pra me ajudar, ele fazia. Ele me amava tanto que fez uma tatuagem no meu nome. Qualquer mulher que ele casasse, ia ser feliz.”

Conselho a outras mães
“Eu digo, de coração, que Deus me emprestou ele pra eu cuidar e eu sinto uma missão cumprida. Acho que devolvi ele a Deus dá mesma forma que ele veio. Vou viver pelos meus outros filhos agora. Deixo um conselho para as mães que têm filho no Uber: peçam a seus filhos pra sair, por favor. Não desejo isso que eu estou passando pra ninguém porque perdi parte da minha vida.”

Uber
Em nota, a empresa Uber disse que o contato com a família de José Henrique Pereira Alves foi feito na manhã desta quarta-feira (9). “O contato não havia sido feito anteriormente em razão do telefone cadastrado ter sido furtado. A Uber se solidarizou com o sofrimento da família e orientou sobre a documentação para dar entrada no seguro aplicativo”, diz comunicado enviado pela empresa ao CORREIO. A família receberá R$ 100 mil, como prevê o seguro da empresa para esse tipo de situação.

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